Conforto para todos
Na Baixada Santista cinco hotéis oferecem suítes adaptadas a portadores de necessidades especiais. Mas, nenhum deles possui acesso total a todos os tipos de deficiências.
Por Carina Seles
Em meio ao trânsito agitado, com semáforos mais velozes que o piscar de olhos, calçadas esburacadas, pessoas esbarrando umas nas outras, enfim uma rampa. No bairro do Gonzaga. Seguindo por seus corrimões dourados, que me serão úteis em algumas situações, logo um rapaz é direcionado a auxiliar-me em direção ao balcão alto. Fico com a cabeça abaixo da linha de visão do recepcionista, que dá o cartão-chave do quarto para o funcionário que me acompanha pelo elevador.
A caixa de transporte é confortável e espaçosa, permitindo a cadeira de rodas, mais quatro pessoas com folga. O corredor, ora espaçoso ora estreito, permite que eu chegue ao quarto com alguma dificuldade. A porta é aberta com o cartão. No local, há a sensação de poucos móveis, mas não é isso. Os espaços vazios são grandes para comportar o equipamento. Vou ao banheiro e consigo entrar no box. Me agarro nos corrimões verticais de apoio para tentar sair da cadeira e sentar no assento destinado para tomar banho. Um pouco difícil de sentar, a dica é ter força nos braços. Para lavar as mãos, mesmo com a pia mais baixa, é necessário muito esforço para a água bater nas mãos. Pelo menos as toalhas estão localizadas abaixo da pia. Consigo secá-las facilmente. No quarto, deito na cama com dificuldade. Não possuo nenhuma deficiência, e mesmo assim, encontrei obstáculos nos quartos destinados a pessoas que necessitam de um atendimento personalizado e confortável. Imagine todo esse percurso realizado por uma pessoa realmente com necessidade física. Ou visual.
Segundo o último levantamento do IBGE, em 2000, Santos possuía 417 mil habitantes. Destes, 50 mil possuíam algum tipo de necessidade especial. O líder do ranking na época foi a deficiência visual, incluindo a baixa visão.
Na Baixada Santista, há apenas cinco hotéis adaptados. Nenhum destes possui acesso total a todas as deficiências. O caso mais inusitado e surpreendente é o acesso a portadores de deficiência visual com cão-guia. Dos cinco hotéis adaptados, três se negaram a receber uma pessoa em porte de um cão-guia. A exceção ficou por conta do Mendes Plaza Hotel, em Santos, e do Casa Grande Hotel, no Guarujá .
Segundo ligações realizadas para o setor de atendimento do hotel em Guarujá no mês de setembro, não há problema em hospedar uma pessoa com cão-guia. Porém, segundo o gerente Herman Montoya, é interessante verificar a época de reserva. “O resort é um local de conforto de lazer. Caso haja muitos eventos de empresas, pode gerar desconforto por parte da pessoa portadora de necessidade. É interessante analisar bem os fatos”, afirmou. O local possui duas suítes adaptadas.
De acordo com as leis 11.126/05 e 5.904/06, Artigo 1º: “É assegurado à pessoa portadora de deficiência visual usuária de cão-guia o direito de ingressar e permanecer com o animal nos veículos e nos estabelecimentos públicos e privados de uso coletivo”. A multa de acordo com Artigo 6o, no caso de impedir ou dificultar o ingresso e a permanência do usuário com o cão-guia nos locais definidos no ou de condicionar tal acesso à separação da dupla gira em torno de R$ 1 mil, podendo chegar até R$ 30 mil.
Segundo Edson Moura, presidente da Associação Bengala Leve, não existe adaptação real. “Normalmente, há a dificuldade de identificação do quarto, além do problema do cão-guia. Mas isso é lei!” Moura citou o caso publicado no site (https://www.oncb.org.br/oncb-news-n%C2%BA-2.html) da Organização Nacional de Cegos do Brasil. Ali se lê que Alberto Clovis Pereira não conseguiu realizar reserva em um hotel no estado do Paraná por ser usuário de cão-guia. De acordo com o site, “na primeira, quando disse ser usuário de cão guia e pessoa cega, recebeu a informação de que o hotel já estava lotado para os dias do evento. Na segunda tentativa, sem se identificar como cego, Pereira conseguiu com facilidade a sua reserva para os quatro dias”.
Edson Moura conta que ficou cego após levar um soco no olho esquerdo, em 2006. Tendo obstruído áreas importantes do órgão, como o cristalino, acabou ficando cego também do olho direito devido a medicamentos e problemas de saúde. Seu cotidiano foi modificado inteiramente. “Vivo agora um novo mundo, com muito mais dificuldades”, diz. A adaptação dos afazeres dentro de casa foi mais fácil do que na rua. Até hoje Moura corre um constante risco de sofrer um acidente, mesmo na calçada. No momento da entrevista, ele estava com um arranhão a partir do olho direito até o cabelo. “Passei rente a um muro que tinha, infelizmente, um palito de churrasco que pegou nesta parte do rosto. Quase fico cego de novo”. Ele conta que há dois principais perigos urbanos. As árvores baixas, em grande quantidade na cidade e as calçadas esburacadas. “Brinco que elas estão em braile”, diz Moura, que também é engenheiro na área de elétrica, aponta para que políticas sejam tomadas em benefício aos portadores de deficiência. Em relação aos hotéis, o engenheiro diz que a falta de treinamento dos funcionários faz com que seja muito complicado a estadia de uma pessoa com deficiência. No caso dele, a dificuldade fica em conhecer e identificar espaços e corredores.
O problema
Segundo Luciano Marques, coordenador de Defesa de Políticas para Pessoas com Deficiência, o problema da falta de acessibilidade, tanto em infraestrutura quanto em atendimento correto, se dá pela falta de consciência empresarial. “O próprio poder público não cumpre”. Marques, que é cadeirante por causa de uma poliomielite, diz que Santos está se preparando para recebê-los, mas está em um processo inicial: “A cidade tem um potencial turístico muito grande. É um erro os empresários acharem que nós, deficientes, não temos acesso ao capital, que não temos poder de consumo”.
Marques diz ainda que a falta de conscientização direciona erroneamente as pessoas imaginarem que acessibilidade é apenas acesso à cadeira de rodas. “Não é apenas isso. O hotel deve pensar em capacitar seus funcionários em aprender libras, por exemplo, pois como se comunicar com um deficiente auditivo, caso ele não saiba fazer leitura labial? Como acordá-lo se ele não escuta? No caso do deficiente visual, ele poderá entrar com o cão-guia? Como ler os panfletos de pontos turísticos? Essas perguntas ainda não foram feitas”, diz.
O mesmo afirma o turismólogo e funcionário público Marcos Neves da Silva, autor do trabalho de conclusão de curso “Valorização da Pessoa com Deficiência no Turismo de Praia Grande”, em 2009. Silva, que teve um dos braços amputados em um acidente, ressalta que adaptações no tratamento e hospedagem devem ser realizadas com urgência, visto que as mudanças estão ocorrendo na legislação.
Locais
No Mendes Plaza Hotel, nas torres Panorama e Plaza, no Gonzaga, há no total 244 apartamentos. Quatorze deles são adaptados, ou seja, 5,7% das unidades. Isso é mais do que o recomendado pelo Decreto Lei 5296/04, de 5%. Segundo a assessoria do hotel, a torre Panorama possui apartamentos adaptados do primeiro ao quinto andar. Já a torre Plaza possui apartamentos adaptados do primeiro ao nono andar.
A largura das portas dos apartamentos e dos banheiros foi ampliada, agora a área total dos apartamentos varia de 31,4 a 34,55 metros quadrados, o que permite acesso, manobra e espaço de transferência de cadeiras de rodas. Frente à cama estilo queen size (com estrado de madeira diretamente no chão e colchões altos), há uma escrivaninha na altura de uma cadeira de rodas, permitindo o encaixe do equipamento.
No banheiro, há barras de segurança nas paredes, além de acento dobrável no box, que permite que o hóspede tome banho sentado. O chuveiro possui torneira mais baixa e sua abertura é feita empurrando-a. Em todo o apartamento, a luz se acende e apaga sozinha, após 30 segundos do ambiente ficar com ausência de movimento.
O hotel, considerado cinco estrelas, fica em cima de um shopping center. O acesso aos dois lugares se dá por meio de elevador adaptado, para a torre Plaza e para uma das entradas do shopping, e rampa de acesso para a torre Panorama, para a outra entrada do centro de compras e na garagem.
Segundo a administração do hotel, a iniciativa faz parte da nova política de gestão, em processo de implantação. Essa ação posicionaria o Mendes Plaza como um dos hotéis com maior índice de apartamentos adaptados em relação ao total de unidades habitacionais da hotelaria nacional.
O Hotel Parque Balneário, também no Gonzaga, possui duas unidades adaptadas. A estadia para duas pessoas, incluindo vaga no estacionamento, gira em torno de R$411, com 2% de acréscimo. Outros hotéis na cidade que abrigam apartamentos adaptados são o Hotel Praiano com uma suíte, e o Carina Flat Hotel, porém não há acessibilidade com cão-guia.
Projetos
Segundo Marques, a prefeitura realizou a 5ª Conferência da cidade no ano passado, onde foi apresentado projetos a longo prazo na área de acessibilidade. Uma das contrapropostas apresentadas pelas próprias pessoas com necessidades especiais foi a sonorização de 30 semáforos nas vias consideradas perigosas, nas principais avenidas da cidade, além de um letreiro acoplado ao sinal, permitindo que o motorista fique atento quanto a travessia de uma pessoa com necessidade especial. Segundo a prefeitura, os projetos estão em fase de aprovação. “É importante os hotéis ficarem atentos a grandes eventos que virão nos próximos anos, como a Copa em 2014”, diz o coordenador do Condefi.
Serviço
::Casa Grande Hotel (Avenida Miguel Estéfano, 1.001, Enseada). O valor da diária em período de baixa temporada gira em torno de R$ 507, com o adicional de 10%. Telefone: (13) 3389-4000.
::Mendes Plaza Hotel, torre Panorama (Rua Euclides da Cunha, 15) e Plaza (Rua Floriano Peixoto, 42) A estadia gira em torno de R$ 236 a R$ 324, a diária para uma pessoa. Informações (13) 3208-6400 ou www.mendeshoteis.com.br.
::Hotel Parque Balneário (Avenida Ana Costa, 555). Telefone: (13) 3285-6900.
::Hotel Praiano (Avenida Barão de Penedo, 39, José Menino) possui uma suíte adaptada, assim como o Carina Flat Hotel (Rua Ministro João Mendes, 271, Aparecida). Telefones: (13) 3237-4033 e 3236-3838, respectivamente.