Nós Fomos- Convento Nossa Senhora da Conceição
Por Ivan Stefano
Mas sabe aquela sensação de que você está sendo observado? Em nossa primeira reportagem para esta editoria, nós da equipe da Parada Certa visitamos o histórico Convento Nossa Senhora da Conceição, em Itanhaém. Se você gosta de ambientes misteriosos, este é o lugar certo!
Domingo de sol, muito sol, 12h30. Saímos em dois carros do bairro Embaré, em Santos, em direção à cidade de Itanhaém. Na equipe, os repórteres Leandro Aiello, Mariana Aquila, Aline Porfírio, Letícia Schumann e Carina Seles, o editor multimídia Gabriel Martins, o editor de planejamento visual Danilo Neto, a editora-chefe Arucha Fernandes e eu, o editor gráfico. Todos estávamos animados com a viagem, apesar das caras de ressaca do dia anterior.
Para chegar, nada de muito mistério. Basta seguir pela Avenida Expresso, até chegar a Itanhaém. Fique atento à placa “Jardim Guassu – Retorno”. É por ela que você irá seguir assim que chegar à cidade. O Convento está localizado no alto do Morro do Itaguaçu, no Centro Histórico, em frente à Praça Carlos Botelho.
No Centro, é possível admirar as mesmas características arquitetônicas da época do Brasil Colonial, além de oferecer algumas opções gastronômicas. Dica: almoce antes de visitar o convento, pois as sugestões para “forrar o estômago” são poucas, limitando-se a alguns “botecos” e lanchonetes próximas.
Após uma hora de viagem, chegamos. Estacionamos os carros a uma quadra do Convento, em uma ruazinha típica de cidade de interior, estreita, com paralelepípedos. Não há estacionamentos. Porém, sem pânico, pois a rua parece tranquila e longe dos temidos assaltos que nos assustam e nos fazem gastar com seguros de carro, casa, vida, alma e o que mais estiver disponível. Vale lembrar que de segunda a sábado esses estacionamentos precisam de cartão, exceto aos domingos.
O Convento pode ser visto por diversos pontos do Centro Histórico por estar localizado bem no alto do morro. Construído em 1532, era uma pequena capela de barro, tendo sua padroeira tida como milagrosa e venerada; só em 1654 a fundação foi confirmada por Alvará em 23 de fevereiro.
Com a marca inicial (o cruzeiro) na entrada, em frente a grande ladeira que dá acesso à Fundação, é uma das primeiras igrejas construídas no Brasil, aberta à visitação. Logo no início da ladeira, a placa convida: “Visite e se encante”. Encante-se, respire, pegue fôlego e siga ladeira acima, afinal este é o único ponto de acesso ao local. “Essa subida não acaba nunca, mal comecei a subir e já cansei”, dizia a repórter Aline Porfírio. Mas acredite, subir a ladeira é ainda menos cansativo do que há tempos atrás.
Até 1752, chegava-se ao Convento de Itanhaém por uma penosa escada com 83 degraus. Só depois dessa época que se iniciou a atual ladeira e foi colocado o cruzeiro. Esta construção foi realizada por Frei Antonio de São Tomaz, conforme dizem os poucos pontos de informação existentes na Fundação.
Ao subirmos a ladeira, toda feita de pedras e alguns pedaços de madeira, com postes de luz antigos por toda sua extensão, uma queda. Uma visitante que descia a ladeira junto com sua filha de mãos dadas caiu. Dica: vá com um tênis apropriado, sem solado liso. Dessa forma se evita o vexame que a visitante passou ao cair e arrancar risadas de quem estava próximo a ela.
Um pouco antes de chegar ao alto do morro é possível subir nas pedras que ficam do lado esquerdo da ladeira e ver uma das mais belas vistas do local. “Que lugar lindo”. Tem até vista para o mar”, dizia a garotinha loira junto ao pai, na beira das pedras. Com vista para o mar e friozinho na barriga devido à altura, vemos toda a Cidade ao som dos pássaros que cantam e ainda se aproveita para pegar um pouco mais de fôlego e continuar o finzinho da subida.
Ao chegar ao alto, deparamos com um enorme gramado e o Convento, branco, com suas rachaduras devido ao desgaste do tempo, um pequeno crucifixo no topo, três janelas frontais e três portas azuis, uma à esquerda, outra no centro que dá acesso direito à Igreja e a porta à direita, por onde entram os visitantes.
“É do ano 1632, PRECISAMOS CONSERVÁ-LO!!! Seria muito pedir-lhe 1,00?”, intimida o cartãozinho entregue pela recepcionista. O custo da visita é de R$ 1,50, exceto para menores de 8 anos, que entram de graça. Não é permitida a entrada para quem estiver vestindo shorts, saia, decote, sem camisa, trajes de banho ou como diz a placa, “shorts reduzido”. As visitas podem ser feitas de segunda a domingo, das 9 às 11 horas e das 13 às 18 horas.
O dinheiro das vendas serve para a manutenção da Fundação, assim como todo o artesanato que é vendido na pequena lojinha logo no primeiro piso do Convento, oferecendo desde garrafas de mel a crucifixos de diferentes modelos, enfeites de porcelana, panos de prato, santos de madeira, suportes para bíblias, cruzes de crochê e até livros de “Anchieta e Itanhaém” de José Carlos Só, que nos contam um pouco da história da Cidade. Os preços na lojinha vão de R$ 2,00 a R$ 50,00. Mas não se preocupe, a lojinha não exibe cartão ou cartaz intimando o visitante a comprar. Aliás, nem atendente tem. Para comprar é preciso chamar a recepcionista, uma das únicas funcionárias que fica à vista no local.
Logo no primeiro andar há um painel, escrito à mão, que conta a história do Convento. Aproveite, pois este é um dos poucos pontos de informação. A recepcionista pouco diz, respondendo às perguntas de forma curta e, às vezes, desconversa. Aparenta ser por medo de revelar certas histórias, mas prefiro acreditar que seja por falta de informação sobre o ambiente, para que a visita fique menos assustadora.
A essa altura, a equipe da revista já estava espalhada por todos os cantos do Convento. Carina Seles lia o painel de informações; Arucha Fernandes e Aline Porfírio admiravam a santa Nossa Senhora da Conceição ao lado direito do primeiro piso, em cima de uma pequena mesinha com um pano branco em bordado; Letícia Schumann intrigada com o santo de braços abertos, com um pequeno pires de xícara aos seus pés que pedia por dinheiro; Mariana Aquila e Danilo Neto e Gabriel Martins subiam as escadas que ficava logo no canto direito; Leandro Aiello lia os cartazes com citações religiosas, espalhados pelas paredes do salão escuro e tomado por alguns flashes de luzes vindos do sol que brilhava lá fora. E eu tirava fotos, tentando entender a história de cada pedaço do lugar. Era como se tudo pedisse pra ser fotografado.
Dica: seja curioso! Ir só para olhar não será um passeio bacana. Pergunte, observe, sinta. Os funcionários pouco falam do lugar, por isso é preciso tentar desvendar por si próprio e ter paciência para analisar detalhes e imaginar cenas. “Vale a pena pagar e dar uma olhada em tudo”, dizia a senhora de vestido florido, com seus cabelos grisalhos, que ia em direção ao palco fazer uma oração à Santa.
No primeiro piso, há uma escada que sobe e outra que desce, três portas do lado esquerdo, uma lojinha, placas com citações religiosas, cadeiras antigas de madeira espalhadas pelo salão e uma porta em frente, na mesma direção da porta de entrada, que nos leva para um imenso jardim. “Dá mais para uma floresta”, brinca Mariana Aquila.
As duas primeiras portas laterais dão acesso à imensa Igreja. Bancos compridos de madeira, pequenos quadros tortamente pendurados, chão de cerâmica, azulejos antigos nas paredes do arco do grande palco e tapetes vermelhos chamam a atenção das pessoas que tentam desvendar o que cada parte significa. “Será que azulejo se chama azulejo porque antigamente todos eram feitos da cor azul?”, perguntava Leandro para mim que, de início achei ser uma pergunta um tanto quanto inútil, mas, ao mesmo tempo, intrigante. “É, talvez seja isso”, foi o que consegui responder.
No palco, três grandes santos chamam a atenção. Dois deles, sem nome, um do lado esquerdo e o outro do lado direito, dentro de uma estrutura em madeira embutida na parede, dão abertura à enorme santa mais ao fundo do altar: Nossa Senhora da Conceição, vestida com seu manto azul marinho e um bebê ao colo. Ao lado dela, mais duas esculturas religiosas: Santo Benedito e o “Bom Jesus”, sentado com suas mãos sobre os joelhos. Tudo muito desgastado devido ao tempo. “Só esse forte cheiro de lugar fechado que incomoda”, dizia Letícia Schumman, que já aparentava um início de rinite, doença que atrapalha os narizes mais sensíveis à poeira.
Há controvérsias em relação à Santa que deu nome ao Convento. Primeiramente, dizem ser feita por Gonçalo Fernandes, que após ter sido preso inocentemente, entalhou a imagem da Virgem na prisão. Após ser libertado, atribuiu sua libertação a um milagre de Nossa Senhora da Conceição, a qual foi trazida à Capela por João Gonçalves.
Também se acredita que a santa veio de Portugal, junto com Nossa Senhora do Amparo que iria para a cidade de São Vicente. No desembarque, trocaram-se as imagens. Mas, em Itanhaém, a escultura foi recebida com o título de Nossa Senhora da Conceição, já que era o nome da imagem por qual esperavam (Memórias da Senhora da Conceição, fl. 2; Livro do Tombo – Itanhaém, fl. 3). Sendo prisioneira ou não, trocada ou não, ela estava lá. Em destaque no imenso altar, entre sombras e santos empoeirados.
“Aqui tem uma carga de energia muito forte. Muita gente já deve ter passado por aqui pra agradecer e pedir, até chorar”, dizia Letícia, que estava sentada na pequena escada no palco que dava acesso à Santa, ainda incomodada com o forte cheiro. Mesmo para os menos religiosos, era perceptível a sensação de que muitos milagres e até mesmo tristezas já havia passado por ali. Era como se uma energia pesada nos tomasse conta e alertasse: “Chega de fotos. É hora de se deixar sentir”. E por alguns instantes deixei a câmera de lado. Não por minha vontade, mas por estar incomodado, como se pedissem para que eu parasse com o festival de flashes disparados em segundos por todos os lados.
Na terceira porta do salão no primeiro piso, uma sala com quatro santos de barro: São Francisco, Santa Clara, Santa Isabel e São Domingos. Todos protegidos dentro de quatro grandes caixas de madeira com vidros frontais, em cima de uma cômoda com quatro enormes gavetas.
No canto direito da pequena sala, uma pia em cimento, com uma pequena torneira fixada na parede, totalmente diferente das pias tradicionais que estamos costumados a ver. Uma enorme rachadura ao canto da pia ameaça a peça e nos dá a impressão de que caíra ao chão a qualquer momento. “É melhor não mexer”, dizia a mim mesmo em pensamento.
Ao lado esquerdo, portas-castiçais azuis e um motor de dentista antigo. O que um motor de dentista velho fazia no meio de enormes santos de barro? Também me fiz a mesma pergunta. Ainda ao lado esquerdo, mais dois pequenos santos em madeira, embutidos em um buraco na parede, e uma pequena placa com uma breve explicação dos quatro Santos de barro presentes na sala.
Cansado do clima de dentro do Convento, resolvi respirar um pouco de ar indo em direção ao imenso jardim da última porta do salão. Para os admiradores da natureza, esse é o melhor ambiente da Fundação. Nele, nota-se a diversidade de pássaros e árvores da região. O lugar nos leva à parte de trás do convento, com suas paredes um tanto quanto judiadas, com nomes de pessoas gravadas. “Talvez aqui esteja assim por causa do grande incêndio”, pensava comigo mesmo.
Dizia a placa do primeiro piso: “Em 17 de maio de 1833, uma grande parte do convento foi destruída por um incêndio. O fogo foi causado pela inadvertência de um religioso que, com um sacho inflamado, fazia guerra aos morcegos”.
Dentre os pássaros, diferentes espécies como o joão-de-barro, bem-te-vi, sabiá- laranjeira, sabiá pau-ferro, joão-bobo, rolinha, saíra-sete-cores, canário-da-terra e até mesmo o bonito, um ilustre pássaro que imita o canto de diversas aves. Todas essas espécies são nativas da Mata Atlântica e encontradas em todo o Litoral Sul.
Diante do ar puro e das sombras das imensas folhas, os pássaros nos davam as boas vindas, como se a tensão pedisse licença para dar lugar a uma enorme paz. Entre uma ave e outra, funcionários surgiam, do nada, como um jardineiro que sumira em segundos e um homem, de macacão azul e calçados marrons, carregando um tronco em direção a uma pequena porta de madeira, autorizada somente aos funcionários.
Mesinhas de cimento espalhadas entre as árvores, um pouco tortas pelas raízes e tomada por musgos, como se ali fosse um canto para se encontrar e jogar conversa fora. “A gente olha e lembra daquelas novelas antigas”, dizia um senhor de camisa pólo laranja e shorts azuis que tentava não tropeçar por entre as raízes.
No meio das árvores, no canto esquerdo ao lado da parede do convento, dois banheiros. Um feminino e um masculino. Nada de especial, simples demais até. Mas a placa com os dizeres de Charles Chaplin intrigava quem fosse “tirar uma aguinha do joelho” antes de seguir desvendando os mistérios do lugar (colocar foto da placa).
Retomado o fôlego, era hora de voltar para dentro do convento e “xeretar” o que faltava, afinal, diferentemente do resto da equipe, eu e Leandro Aiello ainda não havíamos subido nem descido as duas escadas do salão principal.
Ao subi-las, mais coisas que pediam para serem desvendadas. Logo de início, um enorme quadro sustentado por dois troncos e um índio de madeira ao lado. “Srs. Visitantes, pede-se a gentileza de não mexer no índio. Obrigada.”, leu Arucha Fernandes, segundos antes de Aline Porfírio quase se “afogar” num abraço à escultura.
No pequeno salão do segundo andar, uma estante embutida na parede com livros antigos. “Aqui temos livros de visita desde 1960”, disse a recepcionista com muito custo, entre uma conversa e outra. Deviam ser estes na estante, com os dizeres: “Por favor, mantenham os livros em ordem, obrigado”. O “ordem” escrito em destaque, de vermelho, dava a impressão de que aqueles livros já deviam ter sido retirado várias vezes do lugar. Melhor deixar a curiosidade de lado e não mexer.
Ainda no segundo andar, uma mesa antiga com quatro velhas cadeiras, pequenos e diferentes quadros pendurados nas paredes — um deles com uma pintura e réplica do Convento — e uma porta, que dava acesso à sacada da Igreja. Nela, as três janelas com vista para ladeira de entrada e mais quatro longos bancos para a missa.
O chão, de madeira antiga e desgastada, rangia a cada passo e entregava os curiosos que tentavam espiar pela fechadura da porta “Espaço Reservado”, no fundo do salão. Ao lado da misteriosa porta, um pequeno quarto com duas camas — “Caro turista, é proibido remover o lençol” —, um pequeno oratório e uma janela. Ao espiá-la, se debruçando para fora com a ajuda de Leandro Aiello, que me segurava para não cair, era possível ver do lado esquerdo outras tantas janelas. “Talvez sejam mais quartos daquela sala misteriosa”, referia-se Leandro sobre a porta “Espaço Reservado” que ele havia espiado minutos antes entre um buraquinho e outro, existentes na parede de madeira.
Enquanto nos intrigávamos com os dizeres “Favor não puxar a corda do sino”, próximos às cadeiras antigas no meio do salão, uma mulher apressada sai da porta “Espaço Reservado”, desce as escadas correndo e chama desesperadamente a recepcionista. “Vem aqui, rapidinho”, diz a senhora de manto branco. A curiosidade então fora cessada. Dentro da sala misteriosa, uma janela verde logo ao fim do corredor, com portas laterais à direita e várias cadeiras enfileiradas no canto. Sim, eram quartos.
Após socorrer a senhora, a recepcionista sai com um sorriso desconcertado no rosto: “Se vocês tivessem vindo pela manhã conseguiriam falar com ela”, desconversa a recepcionista quando a perguntamos quem era a tal mulher desesperada. “Porque ela estava correndo, mamãe?”, perguntava a garotinha de cabelos curtos e ondulados, tão curiosa quanto o resto dos visitantes que presenciaram o ocorrido.
Depois de cessada a curiosidade, era hora do último andar. Ao descer as escadas, dois diferentes caminhos. Um à esquerda, que dava a mais um espaço entre a natureza e enormes paredes de pedra. “Parece aquela novela que a Jade encontra com o namorado árabe, né mamãe?”, dizia a mesma garotinha de cabelos curtos e olhos cor de mel. Diferentemente do clima de paz entre a natureza que os fundos do Convento oferecia, este espaço me deu novamente uma sensação de tensão, ainda mais pesada que os demais ambientes. Por decorrência desse desconforto, saí logo dali.
O segundo caminho, em frente às escadas, com moedas cimentadas no chão, nos levavam a um tronco com uma corrente e uma placa: “Pelourinho que esteve na Praça da Cidade de Itanhaém, em 1561, encontrado neste local aos pedaços, e em 1971 aqui remontado”. “Será que aqui as pessoas eram castigadas, pai?”, disse a mesma garotinha, ainda curiosa tanto quanto eu. Mas deixei a curiosidade de lado e fui ao encontro da minha equipe, antes que se irritassem com a demora ocasionada pelo meu vício de tirar fotos.
Fomos embora por volta das 16h30, “mortos” de fome, cansados, com pouca conversa e disposição para descer toda aquela ladeira de entrada. Por último, uma foto em frente à Fundação para registrar o momento “Nós fomos” aos leitores. Mas repito: ao visitar o Convento Nossa Senhora da Conceição vá com disposição e curiosidade.
Saí de lá com a sensação de matéria cumprida, mas a fome que atrapalhava o humor de toda a equipe não nos permitiu continuar a desvendar a curiosidade histórica e religiosa que a fundação apresenta. Azar o meu de não ter pego o contato daquela esperta garotinha de olhos cor de mel. Ela certamente criou toda uma história para as suas curiosas perguntas, coisa que as crianças carregam de sobra e nós adultos temos a mania de nos desfazer por culpa da maturidade.