OS PRIMEIROS PASSOS
FAMÍLIA
Bem no meio da cidade de São Vicente foram encontradas marcas de homens que viveram ali há quase 3000 anos. São fragmentos de ossos, vasos, botões, colheres que nos remetem a entender um pouco do passado, com os pés no futuro.
Por Aline Porfírio
Você já pensou que seus hábitos e ações cotidianas podem ser revelados e estudados no futuro? E isso não se trata de reality show, câmeras de monitoramento ou satélites que fotografam. Tudo faz parte da história, o tempo passa e deixa marcas que evidenciam a vida humana. E a primeira cidade do Brasil faz parte desse contexto, apresentando ao mundo um importante sítio arqueológico que reconta a história da colonização nacional.
O sítio fica dentro da Casa Martim Afonso, um centro de documentação e pesquisa da Cidade de São Vicente. Dois dias após o resgate dos 33 mineiros que estavam soterrados há 69 dias no Chile, confesso que fica difícil ter um contato maior com a terra ou estar, literalmente, debaixo dela. Porém, o sítio arqueológico Bacharel provoca uma curiosidade incontrolável de ver de perto os vestígios da pré-história, e tudo isso me convenceu a descer dois metros abaixo do nível das escavações.
Por meio de uma abertura bem estreita no chão, de aproximadamente 1m x 70cm, eu desci por uma escada móvel. O acesso é restrito a pesquisadores. Os visitantes podem acompanhar os trabalhos de cima. Lá embaixo é possível ver uma linha histórica.
Primeiro, os vestígios de Sambaquis embrenhados em terra preta, que nos remetem a um passado muito distante. Depois, as marcas nas rochas mostram a ação da maré durante o tempo. Também passamos pelo período indígena, com restos de cerâmica e artefatos. Logo mais, a um período posterior, com garrafas de vidro e materiais de bronze, quem sabe estes não são dos piratas que invadiram a Ilha? E por final, as louças e botões que demonstram o Brasil colonial.
Toda essa aula de história ao ar livre leva qualquer visitante a repensar suas ações, para que no futuro, trabalhos como esses possam continuar existindo, e que as próximas gerações descubram, em nossos atos cotidianos, mais uma parte de sua própria história.
Antes de ser erguida, a Casa era uma antiga construção em ruínas, que em 1997 seria demolida para dar lugar a um grande edifício. Por ser uma das últimas residências do século XIX na Cidade, o Conselho e a Prefeitura pediram análises da parede dos fundos do local, que, segundo historiadores e pesquisadores, seria a antiga Casa de Pedra, habitada pelo Bacharel de Cananéia e que também abrigou Martim Afonso.
Os estudos da Universidade de São Paulo (USP) revelaram que a parede datava de aproximadamente 420 anos, e seria, provavelmente, a primeira em alvenaria do País. Foi erguida por meio da técnica de alvenaria de pedra, que consiste em cal de sambaqui, óleo de baleia, barro e pedras. Após a revelação, a construtora doou o terreno à prefeitura e restaurou o imóvel, dando origem à Casa Martim Afonso.
Mas, as pesquisas sobre a datação da parede não foram adiante. Até que a curiosidade do historiador e presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Cultural e Turístico de São Vicente, Marcos Braga, falou mais alto. Ele é responsável pela Casa Martim Afonso desde 2005, e já sabendo dos antecedentes do imóvel, não ficou parado. Primeiro Marcos abriu um pequeno buraco nos fundo da Casa e próximo à parede, que desde a descoberta ficou exposta aos visitantes. Pela profundidade, percebeu que os estudos ainda teriam grande base de aprofundamento. “Era tentador saber de tantas histórias e não revirar esse passado. O papel do Conselho é garantir que não se percam mais essas memórias, como muito já foi desperdiçado. Eu não poderia ficar parado”, explica o historiador.
Em 2009, Braga entrou em contato com a Cerpa (Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas) e firmou uma parceria com o Professor Doutor Manoel Gonzalez. “Eu aceitei na hora. Sabia que encontraríamos muita coisa debaixo daquele chão. E eu não estava enganado”, explica o arqueólogo. Bem abaixo da parede histórica, os profissionais abriram um buraco de dois metros de profundidade por 13 de largura. Com um olhar minucioso, de pincelada em pincelada foram surgindo as primeiras surpresas. Na primeira camada, Gonzalez encontrou parte da vida de moradores bem antigos. Garrafas quebradas, colheres de bronze, louças pintadas à mão e materiais à base de ferro indicam parte da colonização da Primeira Vila do Brasil.
Logo depois, ele identificou quatro sítios arqueológicos. Na segunda camada de escavação, foram encontradas peças de cerâmica Tupi, algumas com marcas de dedos e unhas, que exemplificam o artesanato indígena que data em cerca de 800 anos. Mas, a grande surpresa para Gonzalez e Braga, foi o vestígio de sambaquis, que são restos de conchas, terra preta, fragmentos de ossos humanos e de animais. Estima-se que essa ocupação ocorreu por volta de 3000 A.P. Tudo indica que esses grupos eram formados de caçadores-coletores, que se alimentavam de moluscos, frutos silvestres e caça de pequenos animais. Tinham o costume de acumular restos de alimentos em volta de suas moradias, enfeites no corpo e colocar artefatos pela localidade. Além disso, usavam os sambaquis no sepultamento dos membros do grupo, cobrindo o corpo com conchas e outros elementos.
Além dos sítios arqueológicos, foi encontrada também a provável confirmação que Marcos Braga tanto procura saber. Atrás do talude de escavação, foi evidenciada a base da parede que é exposta na Casa, que devido às modificações na estrutura conforme o tempo, não está completa. Descobriu-se que ela segue em direção à Rua Martim Afonso, medindo mais ou menos 25 metros de comprimento. E essa descoberta confirma a ideia de vários pesquisadores, que afirmam que a Casa de Pedra teria provavelmente 25 x 20 metros de base antes de sua demolição.
Após o processo, o sítio foi equipado para receber visitantes. Atualmente, mais de seis mil pessoas já passaram pelo local. Manuel Gonzalez reforça que o sítio Bacharel é diferente e merece atenção. “Em todo o estado de São Paulo não há nada parecido com isso. É o maior sítio em visitação do estado, e ao mesmo tempo, o único que permite acompanhar os processos de estudos ao vivo”.
O que aconteceu com a Casa de Pedra? – A tão famosa casa aparece primeiramente citada em um texto de 1530, escrito por Alonso Santa Cruz, no qual ele cita uma povoação de 10 ou 12 casas, sendo uma feita de pedra, com seus telhados e uma torre para se defender dos índios em tempos de necessidade. A mesma casa teria abrigado, além do Bacharel de Cananéia, Martim Afonso de Sousa, fundador da Vila de São Vicente, no período em que esteve no Brasil. O local seria equivalente a um forte, tendo aproximadamente 400 m².
Com a partida de Martim Afonso, a edificação foi perdendo a importância e acompanhando a decadência da Vila. Outro fato que ajudou na degradação da Casa de Pedra foram os ataques dos piratas Thomas Cavendish, em 1590 e Joris van Spilberg, em 1615. No início do século XVIII tem-se notícias de que o local havia se tornado residência. A edificação foi demolida por volta de 1880 para dar lugar, em 1889, a um sobrado de estilo eclético.
Em 1885, a Casa recebeu a vista de Dom Pedro II, que quis ver de perto o local em que Martim Afonso se instalou. Na década de 1940, o imóvel pertenceu à família Riggios Verrones, de São Paulo. Em 1958, São Vicente ficou eufórica com a visita do ex-presidente da república, Washignton Luiz, que reconheceu a importância histórica da Casa. Por vários anos, a Câmara Municipal e alguns prefeitos iniciaram projetos de preservação do local e a criação de um centro de documentação, mas nenhum foi adiante. Em 1977 foi demolida após um incêndio, e somente 20 anos depois ganhou seu devido espaço na história da cidade.
Futuro – Os trabalhos no sítio do Bacharel continuam. A meta agora é escavar a área do estacionamento, que fica ao lado da Casa. Lá, os pesquisadores acreditam haver evidências da Casa de Pedra e mais fragmentos de ossos, objetos e indícios pré-históricos.
As obras ainda não começaram devido à outra descoberta arqueológica na cidade. Foi ao som de britadeiras, tratores e marretas que operários da obra Boulevard Anna Pimentel encontraram ossos humanos e vestígios indígenas abaixo do solo. A obra pretende fazer da Rua Anna Pimentel, no centro da Cidade, um local cheio de opções para lazer, gastronomia e negócios.
Manoel Gonzalez e Marcos Braga foram chamados para verificar o achado, e constataram que junto ao corpo havia restos de cerâmica indígena e material que provém do carvão, o que indica fogueira e um possível ritual de sepultamento. As peças vão ser encaminhadas para análise para que se saiba sua datação. Braga explica que ele e Gonzalez optaram por não retirar o corpo do local. “Preferimos deixá-lo lá, na posição em que está. Temos um projeto junto ao prefeito para a construção de um vitral onde as pessoas possam passar e vê-lo”, explica o historiador.
Serviço – A Casa Martim Afonso guarda toda a parte de documentação e memória de São Vicente. No local, também são realizadas exposições permanentes e temporárias, todas visando à história brasileira e São Vicente em seu contexto. O sítio arqueológico Bacharel está aberto à visitação desde 20 de janeiro de 2010, e permanece por tempo indeterminado.
Quer Conhecer?
A Casa Martim Afonso fica na Praça 22 de Janeiro, 469 – Gonzaguinha. Funciona de terça a domingo, das 10 às 18 horas. A entrada é gratuita.